segunda-feira, setembro 27, 2004

Passeio dos Sádicos

Todos aqueles que vivem em Lisboa ou arredores conhecem a expressão "passeio dos tristes". Falo daquele costume tão tuga que é o de pegar na famelga toda, enfiá-la no carro e partir, de preferência Domingo depois de almoço, pela marginal, em direcção à linha de cascais, com o intuito de ir observar umas escarpas rochosas com piscinas naturais no seu meio. O mais "triste" é que esta gente viaja quase todas as semanas para o mesmo sítio. Nota: As escarpas foram formadas por milhões de anos de erosão por parte das águas do mar e deslocações de placas tectónicas, pelo que não me parece que sofram grandes alterações visuais durante uma semana.
Agora, temos uma nova versão deste passeio: o "Passeio dos Sádicos". Esta gente enfia-se nas suas viaturas, percorrem horas de viagem, com destino a Figueira, uma vila no concelho de Portimão, onde se desenrola a história (abominável) do desaparecimento de uma criança. Esta gente junta-se aos magotes, na rua da casa onde vivia a menina, apenas para ver a casa, como se duma atração turística se tratasse, ou como se estivessem à espera de uma aparição de Nossa Senhora. Quando entrevistados vemos gente que vem de Setúbal, Santarém, Figueira da Foz e Braga que dizem para as câmaras que "passaram por acaso por lá" ou que "vim almoçar aqui ao pé e decidi vir ver". Não tarda temos lá gente com pás a escavar buracos nos quintais para ver se encontram um osso ou assim para levar como souvenir para a aldeia.
Esta gente devia ter olhos na cara e perceber que aquilo é um drama pessoal e humano e não uma promoção do Campera.
Viu-se o mesmo em Entre-os Rios e ver-se-á o mesmo na próxima tragédia nacional mas, quando é preciso ajudar, como nos incêndios e assim, nem vê-los.
Ao menos que comece a Quinta das Celebridades que ao menos assim o tuga vai para o campo ver vacas (animais e humanas) e não chateia as pessoas.